Fui parar onde Judas perdeu as botas. A propósito, de onde vem isto: “onde Judas perdeu as botas”? Mas, enfim, é pra onde fui: Rosário do Ivaí, cerca de 6 mil habitantes, a cerca de 170 km daqui.
Nem é tão longe, mas é o fim do mundo. Do tipo de fim de mundo que só tem uma entrada e uma saída, ambas a mesma coisa. Você chega lá e não tem mais nada à frente.
Se não há mais pra onde ir e não há mais o que fazer, então faça o seu trabalho. E foi fazendo o meu trabalho, à frente de um computador, que ouvi o inusitado som do fim do mundo: um sino.
Há tempos não ouvia um sino. Em Rosário, sim. E de hora em hora, pontualmente. Uma da tarde, uma badalada; às duas, duas; e assim segue. Depois das nove da noite até às seis da manhã, o sino dá uma trégua pro sono dos fiéis e dos infiéis. Estava até achando legal… ele começava a tocar e eu contava pra saber as horas. Só que aí, às seis da tarde, em vez do sino, a Ave Maria (acho que a de Schubert). Nada contra a Ave Maria, mas perdeu a graça ao saber que o sino é só um sistema de som eletrônico.
Fiquei no “hotel” mais famoso da região. As aspas, suponho, deixam claro que não se tratava muito bem de um hotel. “Pensão” seria um termo mais indicado. Outras pessoas que já haviam passado pelo lugar me alertaram que eu até poderia conseguir um quarto com banheiro privativo, mas as baratas seriam coletivas. Consegui, sim, um quarto com banheiro. E sou uma pessoa muito anti-social, nem as baratas quiseram minha companhia.
A pensão, digo, hotel… era mesmo muito simples, simples demais. E o café da manhã, idem. Sem talheres, sem pratos, sem guardanapos, sem bolos… Mas com pão feito em casa, o verdadeiro. Não desses pães que se dizem caseiros, mas são fofos de uma maciez sem gosto. Não. Pão feito em casa com cara de pão feito em casa, pesado, com sustância. Voltei à casa da minha mãe, na simplicidade e no pão.
E vim, então, de volta pra casa minha. Nesta quarta de manhã com jeito de domingo ensolarado de inverno.
Retornado do fim do mundo, vim prestando atenção na estrada e constatando… A estrada
pro fim do mundo, e pela qual se volta de lá, é muito estreita, sem acostamento, esburacada e cheia de curvas. Mas eis que, com as músicas certas tocando no MP3 e com um pouco de boa vontade, a estrada do fim do mundo se transforma na estrada do paraíso. Ou: o paraíso é a estrada. A pista é estreita mas quase sempre é toda sua, ideal pra se infringir mãos e seguir na contra, cantando alto e buzinando pra afastar os pássaros. O resto é a névoa da manhã na serra, o verde e o nada.